
Filme de estudante da Universidade Adventista Southern aborda história compartilhada por três tradições religiosas
Um estudante de cinema no Tennessee recontou a história do patriarca Abraão de uma forma que dialoga, ao mesmo tempo, com judeus, cristãos e muçulmanos
Jeanne DamasioEstados UnidosSep 6, 2026, 8:33 PM
O projeto cinematográfico de conclusão de curso de Ruslan Zavricico era o que faltava para que ele se formasse. Os alunos de cinema da Universidade Adventista Southern concluem o curso escrevendo, dirigindo e entregando um projeto próprio, e Zavricico queria que o dele alcançasse o público muçulmano. Por isso, o filme se concentra em uma história muito estimada pelos muçulmanos: a do patriarca Abraão levando seu filho ao alto de um monte para sacrificá-lo por ordem de Deus. O desafio de Zavricico era usar uma narrativa compartilhada por três religiões sem afastar o público que pretendia alcançar. Assim, o filho de Abraão não seria identificado em nenhum momento do filme de 12 minutos.
The Son of Abraham (O Filho de Abraão), que começou como um projeto de conclusão de curso, recebeu dois prêmios no International Christian Film and Music Festival: Melhor Diretor e Escolha do Público. O filme conta com a participação do ator Eric Roberts, indicado ao Oscar. O Hope Studios, braço de produção cinematográfica e narrativa do Hope Channel Internacional, estabeleceu uma parceria com Zavricico e o Ministério Adventista de Relações com Muçulmanos para produzir e distribuir a obra, que agora está sendo traduzida para o árabe, o persa e o turco.
Esses três idiomas apontam para uma mesma faixa do mapa. Entre os paralelos 10 e 40 ao norte da linha do Equador, estendendo-se da África Ocidental pelo Oriente Médio até a Ásia, vive a maior parte das pessoas que nunca ouviram o evangelho de Jesus. As agências missionárias chamam essa região de Janela 10/40. Em grande parte dela, missionários estrangeiros não podem atuar abertamente.
Três religiões abraâmicas construíram tradições em torno de uma mesma história
Todos os anos, muçulmanos de todo o mundo celebram o Eid al-Adha, que relembra a disposição de Abraão para sacrificar seu filho. Muitas famílias marcam a ocasião sacrificando uma ovelha, cabra ou vaca. No relato do Alcorão, o pai conta ao filho o que lhe foi pedido, e o filho responde: “Ó meu pai, faze o que te foi ordenado.” Deus então impede o sacrifício e, nas palavras do texto, resgata o filho “com um grande sacrifício”. Em toda essa passagem, na surata As-Saffat 37:99-113, o filho não é identificado.
Tanto judeus quanto cristãos encontram essa história em Gênesis 22. Tradicionalmente, os judeus leem esse trecho da Torá em voz alta na sinagoga no segundo dia de Rosh Hashaná, o Ano-Novo judaico. Eles o chamam de Akedá, que significa “amarração”. Nesse relato, o filho é identificado. Deus diz a Abraão: “Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas” (Gênesis 22:2). O rapaz leva a lenha até o alto do monte sobre as próprias costas e pergunta ao pai: “Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?” (v. 7). No último momento, Abraão vê um carneiro preso pelos chifres em um arbusto e o oferece no lugar do filho.
Há muito tempo, os cristãos interpretam esse capítulo como uma referência a algo que ainda estava por acontecer. O Novo Testamento retoma a história em Hebreus 11, ao dizer que Abraão, quando foi provado, “ofereceu o seu unigênito” e fez isso por considerar “que Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dentre os mortos” (v. 17-18).
Um pai é chamado a entregar o próprio filho. Pai e filho seguem em direção ao lugar do sacrifício. Deus impede a mão do pai e providencia um animal para morrer no lugar do filho. Uma diferença fundamental entre as tradições é o nome — justamente o elemento que Zavricico retirou do roteiro. Ele colocou o filho em quase todas as cenas, mas não permitiu que nenhum personagem o identificasse.
“Quero que o público perceba imediatamente que estamos concentrando a história no filho”, afirmou.
Um sermão em Vancouver leva um estudante de volta a Gênesis 22
Zavricico conhecia essa história desde a infância. Em uma igreja de Vancouver, no estado de Washington, ele ouviu uma comparação entre Gênesis 22 e as últimas horas da vida de Jesus.
“Percebi como Jesus deve ter Se sentido próximo de Abraão e, especialmente, de seu filho, sabendo que percorreria a mesma jornada com Seu próprio Pai”, relembrou.
A câmera acompanha o filho e permanece com ele. A relação com Jesus é revelada por meio das imagens, sem que nenhum personagem a explique — uma abordagem que, segundo o Hope Studios, foi concebida para iniciar conversas com espectadores muçulmanos, judeus e cristãos.
“Ao contrário do filho de Abraão, Jesus foi até o fim”, disse Zavricico. “Ele fez isso por nós, por amor. Ninguém tirou Sua vida; Ele a entregou voluntariamente. Mesmo assim, de alguma forma, manteve a paz e a confiança no amor de Seu Pai.”
Estudante integra equipe profissional de cinema no Tennessee
Um ano antes de dirigir seu primeiro filme, Zavricico passou três semanas trabalhando na equipe de Slick, um curta-metragem produzido pela Southern e filmado em Chattanooga, no Tennessee.
Nick Livanos, professor associado da Escola de Artes Visuais e Design da Southern, foi um dos produtores executivos do filme. Segundo ele, o projeto, escrito e dirigido por profissionais da Southern e realizado com a participação de estudantes da universidade na equipe técnica, proporcionou uma experiência prática com a orientação de profissionais da área. A universidade estabeleceu uma parceria com o Hope Studios, que financiou a seleção do elenco e agora atua como agente de vendas e distribuidor, ampliando o alcance do projeto.
Durante as filmagens de Slick, Zavricico trabalhou como continuísta — ou scripty, como Livanos chama essa função no set. O continuísta acompanha o diretor e registra os diálogos, figurinos, comportamentos e ações de cada tomada para garantir a continuidade do filme.
“O caminho dele não mudou; apenas se consolidou”, afirmou Livanos. “Slick confirmou sua escolha, e agora ele sabe que será diretor.”
Em 2026, Zavricico dirigiu seu trabalho de conclusão de curso com financiamento especial do Hope Channel. O resultado foi o filme The Son of Abraham.
Zavricico já concluiu o curso, e o filme está finalizado. Agora, três versões traduzidas deixam o Tennessee rumo à Janela 10/40, onde a história de Abraão e seu filho já é contada e celebrada todos os anos.
“Espero que o filme leve o público a refletir primeiro sobre as emoções do filho”, disse Zavricico, “e a perceber como é difícil entregar a própria vida por algo tão incerto.”